Perfil do Artista
Maria Martins
ano: 1894 - 1973
Maria de Lourdes Martins Pereira de Souza (Campanha MG 1894¹ - Rio de Janeiro RJ 1973). Escultora, desenhista, gravadora e escritora. Desenvolve grande parte de sua carreira no exterior em virtude das atividades do marido, o embaixador Carlos Martins. Inicia-se na escultura em 1926 e aperfeiçoa-se, na Bélgica, com o escultor Oscar Jespers (1887 - 1970), em 1936. Em 1939, muda-se com Carlos Martins para Washington D.C. Posteriormente, aluga um apartamento em Nova York onde estuda escultura com Jacques Lipchitz (1891 - 1973), realizando trabalhos em bronze. Em 1941, faz sua primeira exposição individual, na Corcoran Art Gallery, em Nova York. Conhece André Breton (1896 - 1966), que a apresenta a artistas europeus ligados ao surrealismo e ao dadaísmo, como Michel Tapiè (1909 - 1987), André Masson (1896 - 1987), Yves Tanguy (1900 - 1955), Max Ernst (1891 - 1976) e Marcel Duchamp (1887 - 1968). Em 1947, André Breton assina o prefácio do catálogo de sua mostra individual, realizada na Julien Lery Gallery, em Nova York. Em 1948, muda-se para Paris, onde seu ateliê torna-se local de encontro de intelectuais e artistas. Volta definitivamente ao Brasil em 1950. Colabora na organização das primeiras Bienais Internacionais de São Paulo e na fundação do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM/RJ. Como escritora, assina coluna no Correio da Manhã e publica entre outros livros, A Índia e o Mundo Novo, A Ásia Maior e o Planeta China. Comentário crítico Com sua poética extremamente individualizada, Maria Martins apresenta-se como figura singular na história da arte moderna brasileira. Devido ao casamento com o embaixador Carlos Martins, em 1926, passa a maior parte da vida adulta no exterior. Estuda música e pintura na juventude, e começa a se dedicar inteiramente à escultura na Bélgica, em 1936, sob a orientação de Oscar Jesper. Transfere-se para Washington D.C. em 1939, permanecendo nos Estados Unidos até 1948. Nesse país desenvolve a maior parte de sua produção artística e obtém o reconhecimento dos círculos de vanguarda da época. Ao longo dos anos, Maria Martins fica conhecida como uma das principais escultoras ligadas ao movimento surrealista. Entretanto, em sua primeira exposição, em 1941, na Corcoran Art Gallery, em Washington D.C., apresenta esculturas figurativas realistas com temas retirados da cultura brasileira ou temas religiosos, de materiais diversos (gesso, madeira, terracota e bronze). No mesmo ano estabelece ateliê em Nova York, onde estuda com Jacques Lipchitz (1891 - 1973) e Stanley William Hayter (1901 - 1988). Nesse momento, a cidade vive clima de efervescência artística em virtude da emigração de vários artistas europeus que ali se estabelecem para fugir da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Tal vivência provavelmente leva a artista a absorver novos conteúdos, incorporando elementos surrealistas. A mudança torna-se visível em sua segunda exposição individual, em 1942, na Galeria Valentine, em Nova York, na qual apresenta formas oníricas de inspiração surreal realizadas em bronze. Devido a essa mostra conhece expoentes do surrealismo como o crítico e escritor André Breton (1896 - 1966), os artistas André Masson (1896 - 1987), Yves Tanguy (1900 - 1955), Marcel Duchamp (1887 - 1968),2 Max Ernst (1891 - 1976) e Michel Tapiè (1909 - 1987). Sua segunda exposição na galeria nova-iorquina, em 1943, Amazonia, é um verdadeiro sucesso.3 A artista continua a trabalhar com temas advindos dos mitos e tradições brasileiros, e a referência à natureza passa a ser feita como símbolo da potência do selvagem e do desejo, em contraposição à natureza dominada da civilização ocidental. Com bronze, Maria Martins cria formas orgânicas cada vez mais livres de qualquer figuração realista, utilizando títulos sugestivos, como é característico de outros artistas surrealistas. Destacam-se, nesse período, obras como Não Te Esqueças Nunca que Eu Venho dos Trópicos (1942), Cobra Grande (1943) e Sem Eco (1943). A ênfase na força do selvagem e do desejo encanta Breton, que em texto de 1947 escreve: "Maria, e atrás dela - quer dizer, nela - o Brasil maravilhoso onde sobre os mais vastos espaços ... paira ainda a asa do irrevelado. A porta imensa apenas entreaberta sobre as regiões virgens onde as forças intocadas, completamente novas, do futuro, se escondem. (...) As angústias, as tentações, as agitações, mas também as auroras, as felicidades e mesmo de vez em quando as puras delícias, eis o que Maria, em bronzes como Yaci, Bouina e Yemanjá, soube captar como ninguém em sua fonte primitiva. (...) Ela não deve nada à escultura do passado ou do presente".4 A partir desse período, Maria Martins participa de grandes mostras do surrealismo, como a organizada, em 1947, em Paris pelo escritor francês. Em Maria Martins, a evocação de uma natureza não dominada pela técnica une-se a elementos do inconsciente para criar imagens de forte impacto visual, carregadas de erotismo, violência, mas também de certa docilidade e lirismo. Na obra Impossível (1944), que teve várias versões de bronze, uma delas adquirida pelo Museu de Arte Moderna de Nova York - MoMA, em 1946, seres híbridos (homem e mulher com aspecto de animais ancestrais) são colocados frente a frente, sugerindo uma situação de desejo profundo, mas também de agressividade e morte, como que apontando os limites da união plena entre os seres.5 Nesse sentido, certos animais como a cobra e a aranha saem do universo mitológico das lendas amazônicas para encarnar símbolos relacionados à vivência da artista. Em However (1944), a serpente do desejo comprime o corpo da mulher, aprisionando-a. No caso de A mulher Perdeu Sua Sombra (1946), duas serpentes saem da cabeça de um corpo feminino hirto, provavelmente como referência a pensamentos libidinosos. Em 1948 muda-se para Paris e se torna amiga de Constantin Brancusi (1876 - 1957), Benjamin Péret (1899 - 1959), Amédée Ozenfant (1886 - 1966) e Michel Seuphor (1901 - 1999).6 Em 1950 volta definitivamente ao Brasil. Ajuda na organização da 1ª Bienal Internacional de São Paulo, da qual participa como artista convidada. Contudo, sua poética surrealista não seria bem recebida no meio artístico brasileiro da primeira metade dos anos 1950, dominado pelas questões do construtivismo e da arte abstrata. Isso acarreta a posição marginal da artista em relação à versão dominante da arte moderna brasileira. Sua última individual ocorre em 1956, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM/RJ, instituição que ajuda a fundar. Pelo que se observa do catálogo da mostra, essa já se dá num clima de hostilidade, pois Maria Martins publica texto que defende a liberdade de expressão do artista.7 No entanto, críticos importantes escrevem sobre seu trabalho, como Mário Pedrosa (1900 - 1981) e Murilo Mendes (1901 - 1975). Interessante observar que ambos os críticos apontam para o desafio de unir a técnica surrealista de "automatismo psíquico" ao trabalho com o bronze. Nota-se ainda que as esculturas realizadas nesse período tornam-se mais abstratas, mas sem perder o sentido alusivo dos títulos (por exemplo O Canto do Mar, 1952, e A Soma dos Nossos Dias, 1954/1955).
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